
Com a Copa do Mundo, voltou à moda diminuir as façanhas de Pelé, de Garrincha, de velhos nortes da bola por se destacarem num futebol menos profissionalizado: “Que há de excepcional em dar chapéu num açougueiro ou caneta num carteiro?”
O argumento não para em pé, nunca parou. Mas soa plausível quando nos voltamos para as seleções: passamos um mês assistindo aos melhores de cada país, com direito a passes de precisão milimétrica, a centroavantes matadores, a muralhas no gol. Saímos da Copa muito mal-acostumados.
Tão logo retorna o Brasileirão, verificamos, no jargão estatístico, a regressão à média. Não importa que hoje o futebol seja praticado por milionários de vinte anos que não fazem mais nada da vida. O esporte continua, no grosso das vezes, uma pelada televisionada.
Na noite de ontem, 5ª feira, Botafogo e Santos se enfrentaram no Niltão, na partida de retorno da Série A. Foi o desfile de caneladas que se espera de uma disputa entre o meio e o fundo da tabela. O placar terminou no 2 a 1 para o time da casa, cada um dos gols nascendo não da disciplina tática, não do gênio individual, mas do erro puro e simples.
Os alvinegros abriram o placar no fim do primeiro tempo, punindo um passe errado da zaga santista. O empate veio no segundo tempo, com o Santos aproveitando o gol vazio após o goleiro do Botafogo se chocar com um companheiro de equipe e ficar caído no chão.
O jogo se encaminhava para o empate, quando, nos acréscimos do segundo tempo, o Santos se atrapalhou com a bola, dando abertura a um contra-ataque. O botafoguense panamenho Kadir Barría recebeu um passe em profundidade, e o goleiro do Santos saiu da área para despachar o perigo com um chutão. O perigo, porém, acertou em cheio a cara do zagueiro amigo, deu um ricochete na cara de Kadir e sobrou em seus pés. Era Kadir e o gol, Kadir com os olhos marejados da pancada, Kadir conduzindo a bola num pique cambaleante. Um santista se aproximou na tentativa de roubar a bola, e a torcida se contorceu de agonia: num jogo dessa qualidade, não existe gol garantido. Mas Kadir recuperou o equilíbrio e balançou as redes, aquietando a miúda torcida santista, setorizada logo atrás.
O torcedor botafoguense vibrou em louca catarse. Cerveja voava por cima das cabeças, camisas eram arrancadas e balançadas ao vento, estranhos se abraçavam e rolavam no chão da arquibancada. Foi sofrido, foi feio, mas foi gol.
Para a economia local, a festa já começara antes da vitória, antes mesmo do jogo. Foram dois meses na pindaíba, dois meses que Engenho de Dentro passou sem receber jogos de times grandes. Mas agora o gigantesco quarteirão do estádio estava apinhado com 15 mil torcedores eufóricos e prontos para consumir.
Enquanto a massa alvinegra era escoada para a estação de trem, para os pontos de ônibus, para a fila do Uber, os food-trucks vendiam as últimas gulodices da noite, os bares enchiam as últimas canecas e um clarinetista já frequente nas páginas d’O Suburbano tocava pela última vez o hino do Botafogo, com a capa do instrumento aos seus pés abarrotada de cédulas. Era a vida do bairro voltando ao normal.❖
Autor
ABREU FERREIRA é paulistano, editor d’O Suburbano e, nas horas vagas, escritor. Saiba mais: Site | Substack.


É verdade, saímos da Copa do Mundo muito mal-acostumados, hahahahaha. Amei o termo "regressão à média".
Eu amo esse jeito de escrever crônicas do autor, detalhando tantas coisas, criando um sentimento de vivência real na gente.
E sempre tem várias pérolas, como "desfile de caneladas"!