Anatomia de uma doação
Repórter dá o sangue na cobertura de coleta externa do HemoRio no Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier
A agulha enorme se aproximava da dobra do meu braço, prestes a perfurá-la. Apertei os olhos e senti uma dor aguda. Quando os abri, já não sentia mais nada além de uma leve dormência. O trambolho estava fincado na minha pele, e um fio escarlate deslizava por um tubo transparente, preenchendo dois pequenos frascos antes de alimentar uma bolsa fora do meu campo de visão.
Eu e os outros doadores de sangue nos estendíamos em seis cadeiras reclinadas defronte a uma larga janela, expostos como peixes num aquário para quem passava do lado de fora. Minha namorada, separada de mim pelo vidro, me acompanhava com olhar apreensivo. Sorri para ela. Ela gostaria de estar ali comigo, num daqueles leitos, mas pesava menos do que os 50 kg exigidos.
O hospital
Do momento em que chegamos no Hospital Municipal Salgado Filho até me porem deitado no leito de doação, mal deu tempo de respirar. Por volta das 11h00, estávamos passando de mãos dadas por debaixo da passarela nova da estação Méier. Cruzamos com uma família sentada numa mureta, as cabeças baixas, os olhos marejados. Esprememo-nos entre o baú de um caminhão e o tráfego intenso da rua Arquias Cordeiro, esperamos uma equipe de paramédicos passar empurrando um homem imobilizado numa maca e ficamos zanzando até achar o hall de emergência do hospital, adaptado naquele dia para a coleta de sangue.
No corredor de acesso, passamos pelo janelão onde os doadores estavam expostos, estendidos em seus leitos de armar. Eles olhavam para o teto enquanto suas veias escorriam para bolsas, balançadas lentamente por uma máquina que misturava o sangue a um líquido anticoagulante.
Até a entrada, precisamos pedir muitas licenças. O caminho estava apinhado de gente, a maioria vestindo camisas amarelas estampadas nos dois lados. No peito, um quebra-cabeça em formato de gota de sangue com os dizeres: “Você é a peça que falta na vida de alguém — doe sangue”. Nas costas, três logotipos dividiam o espaço: o da prefeitura; o do HemoRio, instituto fluminense de hematologia; e o do Norte Shopping, patrocinador do evento.
Não deixaram minha namorada entrar como acompanhante; estava cheio demais lá dentro. Deixei minha mochila com ela e me enfiei no salão.
A triagem
Desde esse instante, a sobrecarga sensorial me deixou desnorteado. Eram dezenas de pessoas andando de lá para cá, cada qual entretida numa atividade diferente, com organizadores e doadores usando a mesma camisa amarela. No falatório geral, avultado em ruído difuso, o tédio burocrático se mesclava com um clima festivo, onde as pessoas se abraçavam e se apertavam para tirar fotos. Não havia sinalização em parte alguma; as indicações de aonde ir e o que fazer eram todas no tête-à-tête.
Empurrado de lá para cá, fui vencendo cada etapa da triagem. Primeiro, uma mulher digitou meus dados básicos num notebook e imprimiu minha ficha. Depois, fui falar com um homem que entulhou meus braços com uma prancheta, uma esferográfica, uma caixinha de suco de uva, um copo de água mineral e uma camisa amarela tamanho GG. Meio atrapalhado, arranjei uma mesa para me sentar. Vesti a camisa, para entrar no personagem. Então espetei o canudo na caixinha e fui bebericando o suco enquanto preenchia minha ficha à mão. Autodeclarei meu peso e altura, li um termo de consentimento, assinei meu nome, virei a folha, respondi a 51 perguntas de SIM ou NÃO, assinei de novo. Algumas das perguntas eram óbvias, abrangendo da vida sexual ao histórico médico; do uso de medicamentos ao de drogas ilícitas. Só a pergunta de número 31 me fez coçar a cabeça: “Já passou mais de 3 meses (cumulativos) na Grã-Bretanha ou na Irlanda entre janeiro de 1980 e dezembro de 1996?”. Depois descobri que se trata de uma precaução contra a doença da vaca louca.
A seguir, me mandaram esperar do lado de fora da sala de entrevista, e aproveitei para apurar informações com uma das organizadoras. Descobri que o HemoRio realiza coletas externas em hospitais, shoppings, igrejas, universidades, empresas — onde quer que o serviço seja requisitado, desde que a instituição tenha condições de sediar um dia de coleta.
Além do Hospital Municipal Salgado Filho, o HemoRio já realizou campanhas recentes em pelo menos mais dois endereços da região: a academia Marques Gym, no Engenho de Dentro, e a Igreja Batista Atitude, no Méier. O Salgado Filho, porém, é a única instituição local com tradição de ceder espaço para a coleta regularmente, a cada quatro meses. Estávamos no dia 30 de junho, e a próxima campanha já tinha data: estava prevista para o dia 29 de outubro.
Chamaram meu nome. Entrei na sala, que ficou de porta aberta, e me sentei diante de uma médica simpática. Ela pôs meu dedo num oxímetro, um aparelho que lembra um pregador de roupa, leu minha ficha e me fez umas perguntas. Despedi-me dela liberado para doar; agora era aguardar liberarem um leito para mim. Mandei mensagem no Telegram para a minha namorada, que já me esperava há mais de 40 minutos. Ela apareceu do outro lado do janelão, e ficamos nos comunicando com caras e bocas até chamarem de novo meu nome.
A doação
Eram seis leitos reclinados de montar e desmontar, como cadeiras de praia ultrarresistentes, alinhados de frente para o janelão. Entre cada par de assentos, havia um médico sentado. Puseram-me no último assento. O médico era um negro parrudo de barba grisalha e mãos delicadas. Ele garroteou meu braço, passou álcool e fez a punção, fixando a agulha no lugar com uma fita adesiva. Primeiro, coletou pequenas amostras para exames de HIV, hepatites B e C, HTLV, sífilis, doença de Chagas, entre outras infecções que poderiam inutilizar meu sangue para transfusões. A seguir, conectou o tubo à minha bolsa de sangue, que levaria uns 20 minutos para ser preenchida.
Deitada ao meu lado estava uma mulher grande, de pele alva e impecável como cera e de longos cabelos negros. Uma mocinha de blazer e crachá passou o tempo todo na frente dela, enquadrando-a com a câmera do celular. A doadora incentivava a audiência a vir doar, dizendo que não doía nada, que ela estava feliz da vida e que uma única doação podia salvar até quatro vidas. No fim, tomou nas mãos a bolsa com 470 mL do próprio sangue e a segurou junto ao rosto, posando para uma foto.
Só fiquei sabendo mais tarde quem era a mulher, quando me sentei para escrever a reportagem e parei para checar o Instagram do hospital. Era a doutora Sandra Mello, diretora geral do Salgado Filho.
Assim que ela se levantou, seu lugar foi ocupado por um jovem com piercing na sobrancelha e físico de bodybuilder. Pouco depois, fui liberado: o médico tirou a agulha e remendou meu braço com algodão e esparadrapo. Eu só removeria o curativo no fim da tarde, durante o banho, revelando um hematoma minúsculo, quase invisível.
Volta para casa
Quando me levantei, deram-me um lanche reforçado: um Polenguinho, um bombom Sonho de Valsa, um pacote de bolinhos Kim, balas de iogurte, pacotes de bolacha cream cracker, uma caixinha de achocolatado e outra de suco de uva. Ficaria para o café da tarde. Saí ao encontro da minha namorada e lhe dei um abraço de um braço só. Em teoria, eu tinha que passar um tempo sem dobrar nem fazer força no membro.
Minha namorada tentou me sonegar a mochila, para me poupar do esforço de carregá-la, mas eu quis bancar o valente: coloquei-a nas costas, passando a alça com dificuldade pelo braço teso. Entrelaçamos os dedos e demos o fora dali. Já passava da hora do almoço.❖






Que aventura gostosa — como todas são na sua companhia! Fico muito feliz por te ver doando sangue e se dispondo a essas experiências em novos lugares, a investigação, o interesse, a paixão, a farra etc. Eu amo o seu ponto de vista, seu jeito de ver o mundo e a vida. Amo te acompanhar, torcer por você, cuidar de você e te paparicar. Que sua doação (como as dos demais doadores) faça grande diferença na vida daqueles que precisam.
Que legal!!! 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻