Grande Méier tem mais de 40 mil pessoas morando em favelas
Número corresponde a 11,4% da população total da região, de 353 mil habitantes
Segundo levantamento d’O Suburbano, o Grande Méier tem 40.325 pessoas morando em favelas. Se fossem reunidas no Nilton Santos, em Engenho de Dentro, por pouco não lotariam o estádio do Botafogo, com capacidade para cerca de 45 mil pessoas.
A população em favelas corresponde a 11,4% do total da região, cujos bairros — Abolição, Água Santa, Cachambi, Encantado, Engenho de Dentro, Engenho Novo, Jacaré, Lins de Vasconcelos, Méier, Piedade, Pilares, Riachuelo, Rocha, Sampaio, São Francisco Xavier e Todos os Santos — somam 353.827 habitantes.
A região é menos favelizada do que a média municipal: enquanto cerca de dois em cada dez cariocas vivem em favelas (21,7%), no Grande Méier a proporção é de cerca de um em cada dez (11,4%). Outro dado que vai no mesmo sentido é o de que o Grande Méier concentra 5,7% dos habitantes da cidade do Rio de Janeiro, mas somente 3% de seus moradores de favela.
Devem-se considerar, porém, as diferenças regionais no seio do próprio Grande Méier. Por exemplo, enquanto Todos os Santos e Riachuelo não têm uma única favela, Sampaio e Lins de Vasconcelos têm taxa de favelização (calculada pela proporção de moradores vivendo em favelas) de 28,75% e 32,94%, respectivamente.
O panorama bairro a bairro será esmiuçado em uma próxima reportagem.
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O que é uma favela
Os primeiros aglomerados habitacionais precários em áreas urbanas — as favelas tais quais as conhecemos — se consolidaram no início do século XX, quando fatores como o êxodo rural, a migração interna e o boom demográfico confluíram no crescimento acelerado e desordenado das cidades brasileiras. Como havia mais gente querendo morar do que habitação formal acessível, as classes populares construíram suas casas por iniciativa e com recursos próprios.
No Rio de Janeiro, a administração pública vem recenseando a população habitante em favelas desde a década de 1940. Tal esforço foi imortalizado na letra de “Recenseamento”, samba composto por Assis Valente, baiano radicado no Rio:
Em mil novecentos e quarenta,
Lá no morro, começaram o recenseamento
E o agente recenseador
Esmiuçou a minha vida — foi um horror
E quando viu a minha mão sem aliança
Encarou para a criança
Que no chão dormia
E perguntou se meu moreno era decente
Se era do batente ou era da folia
[…]
Ao correr das décadas, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e as gestões municipais ao redor do país se valeram de diversas expressões para se referir a esse tipo de habitação: “zonas especiais”, “aglomerados subnormais”, “loteamentos irregulares”, “áreas de interesse social” etc. Já no registro popular, os termos variam de acordo com a região, com as características das construções e com a intenção do falante: “favelas”, “mocambos”, “alagados”, “ressacas”, “palafitas”, “morros”, “periferias”, “bairros”, “vilas”, “quebradas”, “ocupações”, “invasões”, “comunidades”, entre outros.
N’O Suburbano, optamos pelo nome “favela” e por derivados, como “favelização” e “favelizado”, por serem expressões universalmente compreendidas no Rio de Janeiro, por não exalarem o tecnicismo estéril da gestão pública e por serem expressões relativamente neutras, nem complacentes nem estigmatizantes.
Como o Brasil é um país de proporções continentais, a favela assume formas diversas nas diversas regiões, variando em fatores como o terreno onde é edificada, o tipo de material empregado nas construções e o volume da população. Por isso, o conceito de favela usado pelos recenseadores precisa ser elástico o bastante para abranger desde a densamente povoada Rocinha, construída na encosta de um morro na Zona Sul carioca, até a Vila da Barca, em Belém do Pará, construída sobre palafitas.
A classificação de uma área como favelizada é, portanto, determinada pela confluência de características que se reproduzem em favelas de todo o Brasil, tais como a atuação precária ou inexistente do poder público, a ocupação física de terrenos vedados, o predomínio de domicílios com insegurança jurídica de posse e a não obediência aos padrões de edificação, arruamento e infraestrutura regrados pelo Estado.
O Grande Méier, região de interesse d’O Suburbano, tem 84 favelas total ou parcialmente dentro de seu território. Elas se manifestam de diversas formas, desde o complexo do Lins, construído em encostas de morro, até a favela Belém-Belém, em Engenho de Dentro, construída numa área plana; desde o Jacarezinho, com mais de 30 mil habitantes (a terceira mais populosa do Rio, atrás apenas da Rocinha e de Rio das Pedras), até a favelinha da rua Joaquim Martins, nº 378, que tem somente 13 moradores distribuídos em cerca de 1.200 m², ocupando menos de um quarteirão.
Nossa metodologia
Para chegar aos números aqui presentes, bem como aos das próximas reportagens sobre o tema, nós nos baseamos nos dados populacionais mais recentes divulgados pelo Data.Rio, o portal oficial de dados abertos da prefeitura do Rio de Janeiro. Os dados do Data.Rio usados nesta reportagem foram produzidos pelo Instituto Pereira Passos (IPP), órgão de pesquisa e planejamento da prefeitura do Rio de Janeiro, com base no último recenseamento realizado pelo IBGE, em 2022.
O IPP não se limitou a replicar os dados coletados pelo Censo Demográfico de 2022. Antes, precisou submetê-los a um tratamento. Isso se deu porque os Setores Censitários, menores unidades territoriais para as quais o Censo 2022 coletou e divulgou dados populacionais, não respeitam nem os limites dos bairros, nem os limites das favelas, definidos pela gestão municipal. Com isso, um único Setor Censitário pode ocupar um pedacinho de Lins de Vasconcelos e um pedacinho de Engenho Novo; uma fração do complexo do Jacarezinho e um quarteirão não favelizado do Cachambi. O papel do IPP foi redistribuir a população de acordo com esses limites.
Entramos em contato com o Data.Rio no intuito de entender a metodologia de redistribuição. Até a publicação desta reportagem, porém, não houve resposta.
O papel d’O Suburbano foi sobrepor duas camadas cartográficas, a dos bairros e a das favelas, com vistas a estimar o grau de favelização de cada bairro do Grande Méier e da região como um todo, procedimento ainda não divulgado pelo IPP.
Um bom caso para exemplificar nossa metodologia é o do bairro do Méier, no qual identificamos duas pequenas favelas: uma na rua Joaquim Méier, com 273 moradores, e outra na rua Paulo Silva Araújo, com 47 moradores. Somadas as duas, concluímos que o Méier tem ao todo 320 moradores de favela: 0,81% da sua população de 39.700 habitantes. O mesmo procedimento foi realizado para todos os bairros do Grande Méier.
Uma limitação do Data.Rio é informar os dados demográficos de cada favela como um todo, mas não quantos moradores vivem em cada parte. Para O Suburbano, isso se mostrou um desafio quando uma favela se estendia por múltiplos bairros. É o caso do Morro da Matriz, que, pelos nossos cálculos, tem 62,8% de seu território em Engenho Novo e 37,2% em Sampaio. Distribuímos a população da favela, 1.128 habitantes, entre cada bairro de acordo com a distribuição da sua área, de forma que 708,435 moradores do Morro da Matriz foram atribuídos a Engenho Novo e 419,583 a Sampaio.
Evidentemente, as pessoas não existem às frações. Porém, preferimos fazer todos os nossos cálculos internos com números quebrados e arredondá-los somente nos dados divulgados ao público.❖





