O hino prometido
Clarinetista Almir Santiago encanta rampa de acesso ao Engenhão em dias de jogo do Botafogo
A cada trem que chegava na estação Engenho de Dentro, centenas de botafoguenses eram despejados nas plataformas e iam se afunilando nas escadas, depois nas catracas. Assim que passavam para a área das bilheterias, davam de cara com um aglomerado de torcedores. A polícia, por um protocolo de segurança que ninguém conseguia ouvir direito, bloqueava a entrada da rampa de acesso ao estádio Nilton Santos, o Engenhão, onde o Botafogo tem o mando de campo. Dali a uma hora, começaria a rolar a bola contra o Corinthians pela 16ª rodada do Brasileirão 2026.
No mormaço de domingo à tarde, os resmungos, os esbarrões se multiplicavam. Os torcedores ferviam de impaciência. Uns grupos preferiram descer um lance de escadas que os deixou no lado errado do bairro de Engenho de Dentro, e foram margeando os muros mortos da linha férrea até encontrar outra passagem para o estádio. Mas a maioria ficou, e a parede humana seguiu engrossando, ficando mais espessa e mais densa a cada minuto. Suas vozes se somavam num clamor indistinto, confundindo-se com uma música que chegava na forma de um som agudo, distante, quase inaudível.
Quem espichasse a cabeça e olhasse por sobre os ombros dos PMs, veria quase deserta a rampa monumental que se estendia por cima da rua Arquias Cordeiro e desaguava na Praça do Trem, próximo ao estádio. A exceção era um punhado de trabalhadores, todos ociosos pela falta de movimento: aqui, dois guardas de braços cruzados; mais abaixo, um jovem sentado num isopor de água e cerveja; no lado oposto, um vendedor exibindo para ninguém suas bandeiras, que balançavam num varal improvisado. E, ao fim da rampa, um homem solitário tocava o hino popular do Botafogo em sua clarinete. Era Almir Santiago, um senhor negro parrudo com camisa listrada em preto e branco. Nas costas, o número seis; no peito, o escudo histórico com o monograma BFC, de Botafogo Football Club. Cobrindo os fios grisalhos, um boné trazia o escudo moderno encimado pelas estrelas douradas dos títulos. Debaixo da axila, uma muleta compensava a ausência da perna esquerda.
Mesmo sem plateia e sem acústica que propagasse direito sua música, soprava o instrumento sem cessar.
Figurinha carimbada
Às tantas, o cordão policial se dissolveu, e a torcida represada começou a descer aos borbotões. Os lábios de Almir esboçaram um leve sorriso, sem, no entanto, perder a forma do sopro. Postado no meio da rampa, ele repartiu em dois o fluxo da multidão, recebida com um olhar luminoso.
Num dado momento, uma jovem de óculos escuros se agachou para ler com o celular o QR Code do Pix. Noutro, um garotinho veio depositar uma cédula na caixa do instrumento, assentada no chão, e voltou correndo para a família, que sorria e incentivava de longe. E, a cada contribuição, o velho clarinetista agradecia com um meneio de corpo inteiro.
Muitos torcedores exibem familiaridade com Almir ao passar por ele: cumprimentam, gracejam, dão tapinhas nas costas… É figurinha carimbada. Para quem acessa o estádio pela estação de trem, já faz parte do ritual ouvir sua clarinete como aquecimento para a partida.
Enquanto se desce a rampa, vai-se acompanhando mentalmente a melodia familiar:
Botafogo, Botafogo,
campeão desde 1907;
foste herói em cada jogo, Botafogo…
Para o botafoguense que passa por Almir, o coração entra no ritmo da arquibancada antes mesmo de pisar no estádio.
A promessa
Não faz muito tempo que Almir agracia o Engenhão com sua clarinete, mas a história dessa tradição é quase tão antiga quanto ele próprio, que tem 68 anos completos.
Era 19 de dezembro de 1971 quando o clarinetista, então um menino, achava-se entre os mais de 45 mil torcedores que lotavam o Maracanã para assistir à final da primeira edição do Campeonato Brasileiro, sucessor espiritual do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Botafogo e Atlético se embatiam num duelo de alvinegros, o carioca contra o mineiro. De um lado Jairzinho, de outro Dario (o Dadá Maravilha) — ambos campeões mundiais pela seleção canarinho no México, no ano anterior.
A partida foi acirrada desde o primeiro apito, mas seguia sem lances definitivos até que, ao sexagésimo terceiro minuto, o atleticano Dario saltou na grande área, sua cabeça reinando sobre as outras, e cabeceou como quem chuta, cravando bola e sonhos na rede do Botafogo. Vangloriando-se desse gol, que garantiu a taça para o Galo, o carismático Dario lançou um dos seus famosos bordões: “Só tem três coisas que pairam no ar: helicóptero, beija-flor e Dadá Maravilha.”
Para o pequeno Almir, que já tocava clarinete, aquela derrota foi devastadora. Naquele dia, fez a si mesmo uma promessa: se o Botafogo viesse a se vingar do Atlético, tocaria o hino do Botafogo até morrer.
Depois dessa derrota, foram anos de sufoco. “Não tinha nenhuma luz no fim do túnel”, Almir avalia. “As pessoas diziam que o Botafogo nunca mais ia se recuperar; chegaram a compará-lo a um Olaria, a um Bangu, a times, sem querer desprezar, de menor expressão.” O clarinetista lembra com tristeza que a crise não foi só do clube, mas também do torcedor, que foi se afastando. “Assim como o clube é uma instituição, o torcedor também é. São os dois juntos que fazem do Botafogo o que ele é.”
No rolar das décadas, com muito esforço de pessoas abnegadas, o Botafogo foi se recuperando. Foi campeão carioca e campeão brasileiro. Chegou a bater o Atlético-MG em muitas oportunidades, mas Almir não estava convencido — ainda aguardava uma vitória proporcional à frustração de sua infância.
Foram mais de 50 anos de espera. A desforra definitiva veio apenas em 2024, o ano mais glorioso da história recente do Botafogo. Jogando a partida quase toda com um a menos, a estrela solitária bateu seu rival mineiro por 3 a 1 em plena Buenos Aires, garantindo sua primeira taça Libertadores.
O torcedor botafoguense alcançara finalmente a apoteose. E Almir Santiago, fiel à promessa, começou a tocar o hino do Botafogo em dias de jogo no Engenhão.
O encanto da rampa
Naquele domingo de maio de 2026, Almir chegou algumas horas antes do jogo e já se pôs a tocar o hino do Botafogo — repetindo de novo e de novo e de novo, com breves interrupções. Às vezes tirava a clarinete da boca, inclinava-se para pegar as cédulas maiores e as punha no bolso. Às vezes pedia ajuda para mover suas coisas uns passos para frente ou para trás. Em certa altura, sentindo a saliva puxando, dividiu a clarinete em duas e a limpou com uma cordinha amarrada num pano. Montou de novo o instrumento, lambeu os lábios e voltou a soprar.
Almir é capaz de sustentar o hino por horas a fio. “Tocar não cansa, não; o que cansa é ficar em pé”, diz ele.
A poucos minutos do jogo, com o movimento diminuindo, deixou a clarinete apoiada num tripezinho e, com o auxílio da muleta, foi até o corrimão, onde ficou apoiado. Imediatamente, um torcedor passou gritando: “Não para não, não para não!” Almir se divertiu com o carinho. “O povo não quer que eu pare — já está acostumado”, diz ele, todo sorrisos.
Perguntado sobre como perdeu a perna, o clarinetista baixou a cabeça, e a aba do boné projetou uma sombra em seu rosto. “Acidente. Acidente de carro. Não gosto de falar muito no assunto.”
Ele tinha dezoito anos quando aconteceu; acabara de passar numa prova da Marinha e não pôde ir devido à amputação. A vida poderia ter sido bem diferente. Mas Almir é otimista. “Talvez as coisas aconteçam da melhor forma. Foi um pouco bruto para mim? Foi. Tive que adaptar todo o meu modo de vida. Mas foi a melhor forma de eu dar valor, acreditar mais nas coisas, acreditar até na capacidade que eu tinha na música.”
É ela, e não o futebol, que ocupa o centro dos pensamentos de Almir. “Meu compromisso não é com o Botafogo; meu compromisso é com a escola”, diz o clarinetista, referindo-se à prestigiosa Escola de Música Villa-Lobos, no Centro, onde se aprimora, entre idas e vindas, desde a adolescência. O dinheiro que ganha no Engenhão é para bancar seus estudos e fazer a manutenção das clarinetes, que são instrumentos delicados, cheios de peças metálicas. Almir tem duas, uma de reserva. Naquele mesmo dia, uma delas estava aos cuidados de um luthier que orçou o conserto em 750 reais. “É caro? É, mas não tem jeito. É meu instrumento de trabalho.”
Almir não se considera ainda um clarinetista profissional, embora o chamem de vez em quando para fazer uma ponta. Ultimamente, tem focado mais em se aperfeiçoar no instrumento do que em ganhar o pão com ele.
Depois do hino
Almir só parou de tocar depois que o jogo já havia começado: além de aproveitar o movimento dos torcedores retardatários, gosta de ir andando devagar, no seu ritmo. Botou as cédulas e moedas no bolso, desmontou a clarinete em várias peças e as acomodou nos compartimentos aveludados da caixa que estivera recebendo o dinheiro. A caixa entrou numa bolsa que Almir pôs a tiracolo. Tudo ajeitado, pôs-se a caminho.
Naquele dia, Almir estava com problemas na biometria facial do aplicativo do ingresso e não pôde ver o Botafogo no estádio. Em vez disso, foi até o Potato Carioca, onde havia uma televisãozinha transmitindo o Botafogo x Corinthians. Era o primeiro dos food-trucks enfileirados na rua José dos Reis, em frente à entrada Oeste do estádio Nilton Santos. Almir já era conhecido das funcionárias, que providenciaram uma cadeira de plástico onde ele se sentou, pousando a muleta no chão.
Mais torcedores foram se juntando em torno da cadeira para assistir ao jogo. Em poucos instantes, a pequena plateia vibrou: gol do Botafogo. Almir olhou para os lados perguntando quem fez. Arthur Cabral. O clarinetista agitou a cabeça em aprovação. Estava torcendo para o garoto deslanchar — era um goleador em latência.
O repórter que passara a tarde acompanhando Almir Santiago não queria atrapalhar sua concentração, mas tinha uma última pergunta. Agachou-se junto à cadeira e perguntou se, não sabia se ele ia gostar da palavra, mas perguntou se, na sua visão, ele já fazia parte da mitologia botafoguense. O músico riu com doçura. “Não, não, não, nem tanto, nem tanto… Quem dera. Os torcedores são simpáticos comigo, fraternos. Para fazer parte da mitologia botafoguense, falta muito.” ❖








Que emocionante 🖤🤍 é uma delicadeza muito especial. Seu Almir não somente se fez parte da história do Botafogo, como também parte da história do Engenhão, da Zona Norte do Rio. Muitas vezes não percebemos que as marcas que deixamos e nossa presença são bem maiores do que pensamos ser.