Sempre gostei de pessoas. Não necessariamente de estar com elas — são coisas diferentes. Gosto de olhar de longe, escutar conversas pela metade, imaginar a vida que cabe atrás do que estou vendo ou ouvindo.
Nesse sentido, os vizinhos são uma categoria à parte. Ninguém escolhe os vizinhos que tem; pendemos à bênção ou à maldição, e eles sempre foram um prato cheio para a minha curiosidade tímida. É possível saber uma vida inteira só por conversas de elevador, por esbarrões no mercado e pelo jeito de olhar do zelador.
Porém, de todos os vizinhos que eu já tive, um deles se destaca na memória. Não por ser particularmente interessante, embora fosse, mas por ser ainda mais bem-informado do que eu mesma. O Brasil sabia de tudo. As notícias chegavam a ele por fontes veladas, como se a fiação, os canos e as plantas da portaria fossem seus informantes.
Sabia quem ia se mudar antes que aparecesse a placa de aluguel; sabia qual apartamento recebia visitas demais; sabia de infiltrações, dívidas, separações e encomendas extraviadas. Nunca parecia bisbilhotar, e nem parecia estar em casa, na maioria das vezes. Mas sabia de tudo.
Brasil era o sobrenome. O primeiro nome eu nunca soube — ou soube e esqueci deliberadamente, como acontece comumente com as informações que não conseguem competir com outras mais destacadas, como o nome do país. Que importância tem um Carlos, um Mário, um Oswaldo, diante de Brasil?
Nossos encontros eram frequentes, mas eram sempre uma surpresa, como se ele fosse uma aparição — eu nunca o ouvia chegando, o que sempre me fazia pular de susto. O senhor Brasil não pedia desculpas; ele sacudia a cabeça. E sugeria banhos, chás e meditações.
Era religioso de muitas maneiras. Ou talvez fosse curioso de muitas maneiras, o que dá quase no mesmo. Falava de missas, centros, livros, sonhos e sinais com a naturalidade de quem consulta diferentes repartições para resolver a mesma pendência. Não procurava respostas definitivas. Procurava conversa. O que resolvesse — ou parecesse mais convincente — estava bom.
Tinha a presença de quem já corrigiu muitas provas e educou muitos jovens rebeldes. Era professor aposentado, embora eu não consiga garantir de quê. Matemática ou Português, qualquer das duas lhe cairia bem. Ele carregava uma disciplina, uma autoridade e uma honra quase militares, além de um olhar analítico do mundo, o que combina tanto com o regramento gramatical quanto com a precisão dos cálculos. Apesar disso, às vezes descansava a pose rígida e deixava escapar um suspiro, que transparecia a desesperança acumulada nos anos de carreira.
Com calvície global e estatura econômica, era um Paulo Gustavo em miniatura. Vestia-se com uma solenidade que não chegava a ser elegância e não era, de modo algum, descuido. Uma caricatura pronta. Era o estilo de quem tinha feito um acordo particular com o espelho e se recusava a renegociar. Era uma pessoa bem vivida, resolvida, firme nas próprias manias e, ao mesmo tempo, disponível para a conversa de quem cruzasse seu caminho.
Mas nem todo mundo que cruza nosso caminho está a fim de conversa. O senhor Brasil vivia em guerra silenciosa com o síndico, mas uma guerra unilateral, travada por vias administrativas. Não sei qual era a causa original, mas eu o tinha como um senhor injustamente perseguido.
Ele estava há anos no prédio e fazia rotineiramente as mesmas coisas, segundo seus gostos e liberdades. Mas, de uma hora para a outra, isso se tornou um problema. Um após o outro, os comportamentos do Brasil foram pautando as reuniões do prédio, sendo submetidas à votação dos moradores, o que sempre redundava em proibição.
O Brasil não insistia no delito por rebeldia, mas por costume. Deixava a porta aberta por um tempo, a fim de arejar o apartamento. Um comunicado contra portas abertas. Punha dois pares de sapatos sobre o capacho. Outro comunicado. Mantinha uma plantinha no corredor. Mais outro. No menor desvio, que nem desvio era de fato, o interfone já berrava, e, do outro lado, a voz caluniosa do síndico: “O senhor não está zelando pelo espaço coletivo.” Ora, mas até eu estava perdendo a paciência!
Tomei as dores do Brasil e, em exercício de desobediência condominial, comecei a cavar minhas próprias advertências. Aderi às portas escancaradas, bem como às plantas e sapatos do lado de fora — coisas que nunca tinham sido meu apanágio. Meu vizinho jamais soube dos meus atos de rebeldia, mas, na minha cabeça, estávamos unidos em um motim.
Passei dias e mais dias nisso. E o síndico? Nem deu bola. Todo mundo podia tudo, e o Brasil não podia nada, porque o problema do síndico não era com este ou com aquele cidadão; o problema dele era com o Brasil — que acabou içando a bandeira branca. Mudou-se; nunca mais vi.
O pior é que eu gostava muito do síndico, um vizinho querido — e que era excelente no que fazia. Mas essa perseguição mexeu comigo numa escala muito mais ampla que a do meu prédio. Eu tinha o Brasil (vizinho) como um retrato do Brasil (país), insistente em sua autenticidade, mesmo quando tentam podar ou censurar sua expressão de ser, sua liberdade tão particular, sua peculiaridade tão extravagante. Impossível de esquecer ou de ignorar.
Há algo disso no Méier. Entre prédios novos e antigos, calçadas que ora se estreitam ora se alargam, vizinhos que se reconhecem na farmácia e ficam meia hora em pé só pra conversar, a vida dos outros vai se misturando à nossa em detalhes mínimos: uma mudança, o preço da carne, um aviso colado com fita crepe, um encontro no portão.
Longe de mim dizer que só há gente boa por aqui. Todo lugar tem mocinhos e vilões, e a gente mesmo ora interpreta um, ora outro, a depender de quem conta a história. Mas há, inegavelmente, uma vizinhança gostosa, amiga, com funcionamento de interior no meio da cidade grande.❖
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Autora
GABRIELA COUTINHO é poeta e cronista carioca, além de colaboradora d’O Suburbano. Saiba mais: Substack.



Fico muito feliz e me sinto muito honrada em colaborar mais uma vez para o jornal. Poder expressar o cotidiano e tentar retratar o sentimento do Méier é uma delícia. 🙌