Sol na cabeça: 75% dos pontos de ônibus do Méier não têm abrigo
Árvores e marquises viram cobertura improvisada para quem espera ônibus no bairro
Quem frequenta os pontos de ônibus do Méier, precisa improvisar. Na falta de abrigos oficiais — aqueles com cobertura e assento —, o hidrante, a mureta, até o meio-fio vira cadeira. Para escapar do sol, recorre-se à copa da árvore e à marquise da loja. Faz-se o que dá por um mínimo de aconchego na espera.
Nem todos se incomodam da mesma forma. Na rua Lucídio Lago, em frente ao colégio Hélio Alonso, encontramos duas pessoas aguardando o ônibus no mesmo ponto, no mesmo horário, mas vivendo experiências bem diversas. Espremido na sombra de um poste, um senhor com boné do Vasco disse que, pessoalmente, não sente falta de uma estrutura melhor, já que mora perto do ponto e as linhas que frequenta não demoram a chegar.
Alguns passos atrás, uma mulher com ecobag a tiracolo, décadas mais jovem, abrigava-se sob a marquise do que costumava ser um brechó. Ela se queixou da demora do seu ônibus, que às vezes levava meia hora para chegar, e descreveu aquele como um dos piores pontos da região.
No horário de saída dos colégios, chegamos à calçada ampla e bem arborizada da rua Aristides Caire, nº 119, onde encontramos Margarida, de 82 anos, aguardando o 679 (Grotão x Méier). Adolescentes se sentavam com naturalidade nos balizadores de concreto e nos canteiros, o que, à primeira vista, fazia o ponto parecer confortável. Enquanto isso, a idosa passou mais de vinte minutos em pé aguardando o ônibus. Ela olhava para as mesmas estruturas onde os jovens se refestelavam e sacudia a cabeça. “Gente de mais idade não tem essa facilidade”, disse.
Mesmo nos raros pontos onde há abrigo, é preciso jogo de cintura para fugir do sol, que atravessa facilmente as paredes de acrílico.

Ainda assim, o ganho em conforto é evidente. Os abrigos oferecem uma proteção estável que não depende da sombra de árvores, sujeitas a podas e quedas, nem das marquises de lojas, que podem fechar as portas. No Méier, porém, estruturas assim são a exceção.
Os dados
Com base em dados oficiais, observações pelo Google Street View e visitas presenciais, O Suburbano mapeou e buscou mensurar a infraestrutura dos pontos de ônibus do Méier.
Dos 84 pontos de ônibus do Méier, 63 não têm abrigo oficial — o equivalente a 75% do total.
Além de raros, os pontos com abrigo estão distribuídos de forma desigual: a maioria se concentra nos dois terminais de ônibus do Méier e na rua Dias da Cruz, o que privilegia o lado Sul do bairro (ver mapa no início da seção).
Nas demais vias, há apenas quatro pontos bem estruturados, distribuídos de forma aparentemente aleatória entre as ruas Aristides Caire (nº 223), Carolina Santos (nº 108), Intendente Cunha Menezes (nº 284) e Lins de Vasconcelos (nº 210).
É preciso elogiar os terminais de ônibus, que são os locais mais bem atendidos por abrigos.
Contudo, deve-se ressalvar que nem todos os abrigos são criados iguais. No terminal Arquiteto Gelton Paciello Motta, sob o viaduto Castro Alves, os abrigos cobrem a cabeça, mas não têm assento — caso único no Méier. Não raro, os passageiros preferem aguardar sentados nos canteiros das árvores.
Casos particulares
No ponto da rua Santa Fé, em frente à sorveteria Oggi, O Suburbano encontrou Cléber Souza dos Santos, morador de Vila Isabel. Com mais de 65 anos, ele usa o passe livre para almoçar diariamente no Restaurante do Povo, na rua 24 de Maio, altura da estação Silva Freire. Na volta, pega o 623 (Penha x Saens Peña).
Diabético, Cléber teve de amputar parte dos pés há cerca de um ano, restando-lhe apenas dois dedos no pé esquerdo. A muleta não é suficiente para garantir equilíbrio e conforto durante a espera, que pode chegar a meia hora. No dia da entrevista, passou boa parte do tempo apoiado num poste.
Sem abrigo, o ponto piorou recentemente, depois que a Comlurb podou as árvores e, com elas, o frescor da calçada.
Como se a estrutura dos pontos já não fosse precária o bastante, muitos deles sofrem com vandalismo. Não é difícil encontrar placas azuis com ícone de ônibus cobertas por adesivos e pichações.
Pior que encontrar a placa depredada é não encontrá-la. Na avenida Amaro Cavalcanti, em frente à farmácia de manipulação All Farma (nº 45), a sinalização da parada desapareceu há tempos: imagens do Google Street View indicam que foi arrancada em algum momento entre março de 2023 e julho de 2024. Não foi reposta desde então.
A ausência parece não fazer falta para os moradores e trabalhadores do bairro, que seguem se aglomerando em torno do poste por puro costume, mas certamente confunde o enorme fluxo de visitantes da Dias da Cruz e imediações.
Curioso, também, é o ponto em frente à Galeria Oxford, um dos poucos sem abrigo na rua Dias da Cruz. Na falta de uma estrutura própria para quem espera o ônibus, camelôs, pipoqueiros e vendedores de toda sorte se assenhoram da calçada. Ao passageiro, só resta aguardar no recuo viário que, noutros pontos da mesma rua, é usado para os ônibus pararem.
Insegurança
O medo de assaltos, ou coisa pior, está entre as maiores preocupações de quem espera ônibus no Méier. Entre os entrevistados, a sensação de insegurança apareceu em relatos sobre pontos afastados das vias principais e, principalmente, sobre o período ermo do fim da noite, da madrugada adentro, quando as portas roll-up estão fechadas e os trabalhadores, descansando em casa. São horas de passo apertado e tensão na mandíbula, quando ficar parado esperando o ônibus representa um risco real.
Além da falta de movimento, os entrevistados acusam a iluminação precária como um dos fatores que favorecem a violência urbana. Nesta edição do DataSub, porém, não foi possível aprofundar essas questões.❖















Fico muito feliz em poder não apenas consumir mas também participar desse tipo de reportagem aqui no Substack. Estou acostumada a consumir — e escrever — mais crônicas e poesias, então ver um espaço sendo ocupado por um jornalismo tão cuidadoso, sensível e ao mesmo tempo objetivo tem realmente me cativado!
Talvez existam outras coberturas por aqui, mas essa me atravessou de um jeito diferente justamente por olhar para a Zona Norte do Rio. Acho que todo suburbano entende esse sentimento. Existe algo muito íntimo em ver a nossa realidade sendo observada com seriedade, sem caricatura e sem distância.
O carioca ama falar do ErreJota — e eu também amo muita coisa daqui —, mas a verdade é que a rotina de quem trabalha e vive a cidade é muito atravessada por dificuldades. Violência, insegurança, inflação, corrupção, problemas urbanos… e o transporte pesa demais nessa conta, principalmente para quem vive no subúrbio.
Por isso gostei tanto da reportagem. Ela informa, mas também provoca reflexão. E acho isso ainda mais importante em um ano de eleição.
Que ótima primeira reportagem!