Esporte sob o viaduto: conheça a Vila Olímpica Encantado
Repórter conhece por dentro a Vila Olímpica Encantado e participa de aulão de vôlei
Os vãos sob os viadutos costumam ser flagelos urbanísticos: espaços sinistros e mal iluminados que a população aprendeu a evitar — ou passar às pressas, quando não há escapatória. Mas não no do Encantado. Desde 2011, o bairro abriga uma Vila Olímpica de mais de 6.000 m², instalada entre os pilares do viaduto da Linha Amarela.
Localizado na rua Bento Gonçalves, nº 457A, o centro esportivo integra a rede de 28 Vilas Olímpicas administradas pela prefeitura do Rio. São espaços públicos com profissionais e infraestrutura para oferecer diversas modalidades abertas à população, do skate à dança de salão, do basquete ao judô.
A poucas quadras do Engenhão
Em fins de julho, as aulas regulares da Vila Olímpica Encantado foram suspensas por onze dias, dando lugar a um cronograma especial. No período vespertino, as crianças se exercitaram brincando nas atividades da colônia de férias. Já pelas manhãs, os adultos tiveram aulões de modalidades variadas, como capoeira, alongamento e pilates. Não havia burocracia: era chegar e participar.
O Suburbano escolheu o repórter mais sedentário da redação para cobrir o aulão de vôlei, esporte que praticou nos priscos tempos da juventude.
Para chegar à Vila Olímpica, ele partiu da Praça do Trem, ao lado do estádio Nilton Santos, e seguiu em linha reta pelos três quarteirões da rua Bento Gonçalves. Era uma rua de casas antigas, muitas com a pintura descascando, muitas eivadas de pichos. Apesar do relativo abandono e do baixo movimento de pedestres, suas calçadas tinham o ar seguro e convidativo de uma vizinhança familiar.
Na altura do Rio dos Frangos, que corre por debaixo da rua, as copas das árvores começam a se abrir, desvelando uma estrutura titânica de concreto armado. Era o viaduto da Linha Amarela. Na sombra debaixo dele, o repórter encontrou um pequeno estacionamento e um portãozinho aberto.
Debaixo do viaduto
Nosso repórter chegou faltando dez minutos para o aulão de vôlei, programado para as 9h da manhã daquela quinta-feira. Um público majoritariamente feminino e de meia-idade se dividia entre colchonetes estendidos numa quadra poliesportiva e o tatame de uma sala com portas de vidro. Suavam os últimos minutos dos aulões de yoga e ginástica localizada.
Enquanto aguardava, o repórter deu uma volta para conhecer o espaço e tirar umas fotos. Olhando para cima, viam-se as duas faixas da Linha Amarela correndo em paralelo, separadas apenas por uma fresta estreita de luz. Uma tela impedia a queda de objetos nas cabeças dos atletas. A Vila se alongava no sentido do viaduto, ladeada à esquerda e à direita por quadras poliesportivas, pistas de skate, um campo de futebol society, uma academia da terceira idade e um estúdio de dança, dentre outras estruturas.
Toda a extensão dos muros era grafitada em cores e formas vibrantes. Pinturas verde-amarelas se espalhavam pelo chão, obra da criançada durante a última Copa do Mundo, e, aqui e ali, via-se discretamente o logo da Nike, responsável junto à prefeitura por reformar o centro esportivo em 2016. Era tudo asseado, à exceção dos pilares, cujos pés se achavam incrustados de fezes. No topo, havia reentrâncias onde os pombos se aninhavam com a cauda apontada para fora.
O pequeno aulão
Quando o repórter terminou de percorrer a vila, as alunas da yoga e da ginástica localizada já haviam ido embora. Além dele, restaram somente os profissionais da Vila Olímpica, que conversavam em roda em frente à sala da administração. O repórter ficou olhando de longe, meio tímido. Por fim se aproximou e perguntou sobre o vôlei.
“Só apareceu você”, disseram. “Nesse horário é muito difícil.”
Não é que, na faixa etária do repórter, o voleibol não tivesse adeptos, mas que, no cronograma regular, era praticado às terças e quintas, às 21h. Àquela hora da manhã, o público habitual estava trabalhando.
O repórter disse que tudo bem, com mal disfarçada frustração. Achou que voltaria para casa sem a notícia e sem o vôlei.
Professor Pedro, um jovem alto de cabelo platinado, sugeriu que o repórter pegasse uma bola e brincasse sozinho na quadra. O repórter não se empolgou, mas se rendeu à insistência da equipe. Ganhou não uma, mas duas bolas, e se dirigiu à quadra.
Com os braços armados em manchete, usou-os para lançar a bola repetidamente para o alto, numa espécie de embaixadinha. Não custou a se entediar e passou a arremessar a bola no aro, tentando fazer cesta.
“Isso é bola de vôlei, meu filho”, disse Pedro entrando na quadra com uma caneca do Vasco na mão. Deu uma golada, depositou o recipiente no chão e pegou uma bola para mostrar como se faz. A partir daí, passou a dar instruções ao repórter, que obedeceu e imitou no melhor das suas habilidades.
Sempre que o professor falava ao aluno ou vice-versa, o interlocutor gemia: “Hãn?”. Uma conversa a três metros de distância, comum nos esportes de quadra, era quase inviável, porque a voz tinha que competir com o ruído da Linha Amarela sobre a cabeça, da rua Bento Gonçalves de um lado, da rua Goiás de outro, e dos trilhos do trem logo atrás. Mas a dificuldade não impediu que combinassem de cortar a bola contra a grade e, na sequência, dar saques mirando a tabela de basquete.
A camisa do repórter já estava encharcada de suor quando Pedro o orientou a tomar posição. O professor, então, deu uma sequência de cortes a queima-roupa para o repórter defender. Estava com o reflexo em dia e até se divertindo. Numa bola difícil, perdeu o equilíbrio e foi ao chão. Na hora, deu risada. Ao se levantar, porém, descobriu que não tinha mais vinte anos. Seus antebraços, sem o calejado de antigamente, ardiam de dor. Estava ralado, arfando, o coração prestes a saltar pela boca. A brincadeira não rendeu nem meia hora, e já pediu arrego.
Volta para casa
Antes de se despedir, o repórter foi lavar as mãos empoeiradas no banheiro. Encontrou ali a única parte questionável da estrutura da Vila Olímpica: naquele dia, estava sem sabonete e, das duas cabines, uma estava interditada e a outra, sem tranca. O repórter, por questões anatômicas, não pôde apurar a situação do banheiro feminino.
Enquanto se dirigia ao portão, passou por dois garotos e seu pai batendo bola no campinho de grama sintética. Logo adiante, viu uma garotinha com capacete, joelheiras e cotoveleiras aprendendo a andar de skate acompanhada do pai. A população não dependia das aulas para aproveitar o espaço, aberto desde cedo de manhã até tarde da noite.
O repórter foi embora com a impressão de que os viadutos não são tão ruins, afinal. Existe pelo menos um do qual ele gostaria de morar muito mais perto.❖




