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Há dois anos sem gente, apartamento no Méier ganha inquilinos alados que preenchem o silêncio com seus cantos
O apartamento ao lado está vazio. Vazio de gente, de conversa, de luz acesa à noite. Mas não de vida. Há exatamente dois anos, desde que o senhor japonês se mudou, uma revoada de passarinhos tomou posse do lugar. Começaram tímidos — um ninho improvisado na janela do banheiro, um canto curto ao amanhecer. Mas, aos poucos, tornaram-se uma multidão alada, cantando sem parar, colocando todos os mexericos aviários em dia.
Meu vizinho era um homem gentil. Arquiteto aposentado, cheio de histórias, silêncios elegantes e elogios cavalheirescos. Conversava como quem planta brotos de bambu. Cada palavra sua parecia escolhida com cuidado, como os móveis que desenhou com as próprias mãos. Quando falava de sua vida — do sucesso, do fracasso, do Japão, das perdas, dos imóveis que teve e que já não tinha —, havia sempre um sorriso discreto, de quem sabe que tudo passa, até os grandes edifícios. Ele veio para este bairro em busca de algo simples: vizinhança, padaria, gente andando a pé. “Parece mais com casa”, disse-me uma vez. E ficou.
Agora ele está longe, morando com a irmã, cuidando dela e deixando-se cuidar. Nunca mais o vi. Mas, curiosamente, seu apartamento jamais esteve só.
Os pássaros chegaram como inquilinos improváveis. Pequenos, inquietos, barulhentos. Entraram pelo basculante do banheiro e de lá não saíram mais. Não sei como cabem tantos. Às vezes, um ou outro se aventura aqui em casa, esvoaçando pela cozinha, ignorando solenemente o meu gato velho — que os observa com um misto de tédio e saudade da juventude.
Fico imaginando o que pensaria o arquiteto ao saber que o banheiro, outrora arrumado com o rigor e o cuidado que só ele tinha, agora abriga ninhos e gerações inteiras. Que seu apartamento virou céu. Talvez achasse engraçado; talvez dissesse algo como: “A vida continua”. Ou talvez achasse uma balbúrdia absurda. Não sei. Mas é uma bagunça viva, necessária. Como são quase todas as coisas que insistem em permanecer.
Não sei como ele está, ou se ainda está. Mas os pássaros continuam aqui. E eu gosto de observá-los. Vejo os pais trazendo alimento e imagino os filhotes abrindo o bico para receber o banquete; vejo os primeiros pulos da janela direto para a independência. Eles sempre vão embora, e então chegam outros. E assim a vida segue.
Uns partem, outros chegam. Entre prédios e ninhos, no meio de tudo, fica a beleza das coisas simples, mesmo quando parece que ninguém está prestando atenção.❖
Autora
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Ah, que delícia! Muito obrigada por este espaço tão bacana e aconchegante. Tenho muito orgulho deste jornal!
Com certeza seu vizinho é uma pessoa muito boa! Texto lindo!